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Professor, dançarino, coreógrafo e produtor. Especializado em Salsa e ritmos do Caribe.
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Carnaval e Salsa

Pela segunda vez a Salsa me leva ao carnaval.

A primeira, em 2002, foi como dançarino da banda de Pedro La Colina, contratado para tocar no camarote da Brahma, no sambódromo de SP, animando os intervalos entre um desfile e outro. Desta feita, depois de cair de pára-quedas no carnaval baiano, fui convidado por Jorge Zarat, cantor e líder da banda Salsalitro (cuja temporada em São Paulo foi marcada por uma grande parceria com a Cia Conexión Caribe) a percorrer o circuito Barra-Ondina, no Trio Elétrico da banda, durante o último carnaval de Salvador.Feliz e surpreso com o convite, me perguntava como seria a reação do público a uma banda de Salsa em pleno carnaval, ainda mais na Bahia.

Enquanto esperava os preparativos da banda e do caminhão do trio elétrico para sair na avenida, já tomada de foliões, imaginava o que menos aguardava. Primeira surpresa: descobri que as duas horas que eu supunha durar o percurso eram, na verdade, seis ou sete! Caramba... pensei! Poucas vezes dancei seis ou sete horas seguidas de Salsa! Como os músicos agüentam? Como eu agüentaria?

Até parece que eu não sabia a resposta.

O fato é que quando o carro entrou na avenida, ao som de "La Vida És Un Carnaval" desejei do fundo do coração que Célia Cruz, lá do alto, estivesse vendo aquilo. Dois milhões de pessoas (isso mesmo: dois milhões, segundo as estimativas!) pulando e vibrando em sintonia com a energia e o carisma impressionante de Jorge Zarat, do maestro Reudes Nogueira e dos tambores, cordas e metais da Salsalitro.

À medida que avançávamos na multidão, seguidos por boa parte da galera salsera da Bahia, mais aquilo parecia mágico. Não imaginei ver um dia, no Brasil, a Salsa no meio de tanta gente. Mesmo sabendo que o baiano é festeiro por natureza e é capaz de dançar ao som de qualquer coisa, mesmo assim era impossível não se impressionar com a força, a energia, o calor de toda aquela gente, misturados ao calor e à impressionante energia da salsa. E cada vez mais eu desejava que aquilo não acabasse nunca.

É claro que a banda misturou muito merengue e sucessos da música baiana (Gil - o ministro, Gerônimo, Ivete, Luis Caldas), em arranjos próprios, às Salsas tradicionais. E nem poderia ser diferente (aliás, primoroso o arranjo de "Poeira", o maior hit do carnaval 2004, em ritmo de cha-cha-cha!). Mas o fato é que ouvimos e dançamos, junto a dois milhões de pessoas, Célia Cruz, Perez Prado, Glória Stefan, Ruben Blades e Juan Luis Guerra, entre outros. Salsa, Mambo, Merengue e Chachacha. No Brasil. E em pleno carnaval.

É impossível passar incólume por uma experiência dessas!

Meu coração salsero não cabia em si de felicidade e de esperança. E meus pensamentos voaram muito, muito longe... Quem sabe?


Ricardo Garcia

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Dançar x Executar


Sempre gostei muito de observar. Principalmente pessoas. Nos bailes então, costumo dedicar boa parte do meu tempo a esse prazer quase "voyeur", de observar casais entrelaçados na pista de dança.  E esse hábito tem me revelado aspectos muito interessantes desse jogo chamado dançar.

Quando vejo um casal que me agrada, procuro sempre descobrir, detalhar, o quê exatamente, dentre as tantas características de uma dança,  me chama a atenção ou me encanta. Às vezes um olhar, às vezes uma forma de sorrir ou de executar os movimentos, de se expressar através de uma música, de se envolver com ela e principalmente com o parceiro. A mesma coisa quando  uma casal não me agrada: procuro notar onde está a desarmonia ou fator  que me incomoda. É claro que essas observações levam em conta critérios particulares de gosto, estética e referência, que certamente não são compartilhados por todos, mas alguns pontos, que julgo muito importantes, são, e parecem ser cada vez mais, consenso entre os que se dispõem a discutir as formas, técnicas, estéticas e estilos de se dançar. E é sobre esses que eu gostaria de focar a atenção.

Notadamente alguns casais quando vão para a pista de dança já têm na cabeça as seqüências de passos a serem executadas. Pode ser a da última aula (se forem alunos), a que foi vista em um outro casal, em algum vídeo, a preferida de sempre ou até mesmo a única que se sabe (ou se lembra).  Vejo casais, muitas  vezes com uma coreografia inteira pré-determinada. E o que é pior: INDEPENDENTE  da música que esteja tocando.

Não sou do tipo que faz apologia ao virtuosismo ou à técnica excepcional como condição necessária para se definir um bom dançarino. Nem ao repertório numeroso de passos e figuras.  Sempre me agradou muito mais um casal harmonioso, envolvido com a música e um com o outro, procurando expressar sentimentos através de movimentos simples, do que outros, ocupados em vomitar passos,  giros e figuras, na maior quantidade possível, dentro do menor tempo, usando a música quase que como um pretexto para seu exibicionismo.

Defendo a evolução e o aprimoramento técnico, claro. E gosto dele.  Acho fantástica a capacidade de se aprimorar, de se superar.  Mas a técnica, a meu ver, deve ser uma ferramenta a serviço de um sentimento, de uma necessidade de expressão. Um dos aspectos que considero válidos para se definir um bom dançarino, ou dançarina, é a capacidade técnica de domínio sobre o corpo e seus movimentos. Ter controle sobre ele para poder utilizá-lo plenamente e dentro de padrões estabelecidos de uma dança, a serviço dos sentimentos gerados por ela. Quando apenas reproduzimos movimentos, sem sentimentos,  estamos apenas "executando  passos". Ou em muitos casos "executando" (matando) uma dança.
 
Costumo usar muitos exemplos da minha experiência como músico para entender e explicar aspectos da dança. Vou usar mais um.

Um dos gêneros de instrumentistas que sempre me chamaram especial atenção por sua qualidade artística e capacidade de expressão musical e que, a meu ver, estão entre os que melhor empregam a capacidade técnica e o domínio sobre o instrumento, são os músicos de Blues. Quem nunca parou para prestar atenção, que o faça. É impressionante como o sentimento sempre vem primeiro, na frente, ao tocar. E a técnica a serviço deste. Ora com frases melódicas rápidas e viscerais, ora com frases simples ou mesmo uma única nota sustentando um ou mais compassos.  Tudo dependendo do momento, do clima, do sentimento do músico e do que se quer expressar.

Poderia aqui escrever parágrafos e mais parágrafos sobre as várias opiniões, minhas e de outros, sobre as diferenças entre dançar x executar passos. Mas vou ficar apenas na que julgo a mais importante: a dança tem que ter vida. Composta de elementos como a música (o principal!), o parceiro, os movimentos, o ambiente, o momento e vários outros, a dança tem que ser uma experiência única. Cada dança uma dança, cada dança uma história. Esta é a verdadeira riqueza.

Quem não entender isso, vai perder a grande chance de vivenciar  e colecionar uma infinidade de histórias, lindas, apaixonadas, divertidas, engraçadas, tristes, dramáticas, enigmáticas, confusas, alucinadas,  sofisticadas, simples...  E terminar, como dançarino, como aqueles pobres atores de um papel só. Como cantores de uma única música.

Ricardo

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